Para muitos casais, o uso de celulares é um ponto de tensão. Mas para David Duda e Hong Liang, um casal de New Haven, Connecticut, a tecnologia é tão essencial que eles possuem oito baterias externas. Se os telefones deles descarregam, também acaba a capacidade de se comunicar.
- Alugue um Humano’: site permite que agentes de IA contratem pessoas para realizar tarefas no mundo físico
- Um humano na rede dos ‘bots’: como me infiltrei no Moltbook fingindo ser uma IA brasileira
Duda, de 62 anos, fala inglês, e Liang, de 57, mandarim. Eles dependem de um aplicativo para smartphone da Microsoft, chamado Translator, para fornecer uma tradução em texto do que dizem — como legendas de filme, mas para a vida cotidiana.
Embora estejam casados há três anos, eles caminhavam pela rua em uma tarde recente de dezembro com os braços entrelaçados como recém-casados. Isso era tanto por necessidade quanto por afeto: um deles conversava e se orientava, enquanto os olhos do outro estavam fixos no telefone, lendo as falas traduzidas.
Quando Duda contava uma piada, ele segurava o riso por alguns segundos até que Liang conseguisse lê-la.
Comunicar-se dessa maneira exige muita atenção. Duda e Liang não podem ouvir um ao outro pela metade nem se afastar enquanto conversam. Não há diálogos aos gritos no chuveiro. Quando querem realmente se conectar, passam horas no sofá ou deitados na cama, indo e voltando até terem certeza de que entenderam o que o outro disse.
— O tradutor faz com que você tenha que estar mais presente, porque você precisa estar lendo e ouvindo — disse Duda. — Você precisa prestar mais atenção, o que obviamente é uma coisa boa quando você está se relacionando com seu cônjuge.
Liang, conforme traduzido por um intérprete humano do mandarim, disse: “Ele presta atenção a todos os detalhes e cuida bem de mim. Ele realmente sabe e vê do que eu preciso.” (Tradução automática: Ele é muito atencioso. Ele pensou em tudo por mim, então fiquei impressionada com muitos dos detalhes dele.)
Liang usa aplicativo de tradução para conversar com o marido — Foto: Oliver Farshi / The New York Times
A tradução automatizada avançou o suficiente nos últimos anos para ser usada por pessoas cuja atração transcende a fluência, como Duda e Liang, bem como por viajantes em terras estrangeiras e por empresas que esperam atrair novos mercados e públicos.
Usei Apple AirPods, que têm tradução de idioma em tempo real, além do Microsoft Translator, para entrevistar Liang. Consegui acompanhar grande parte do que ela disse, embora o atraso tenha tornado a conversa desafiadora. E houve mal-entendidos importantes, dos quais só tomei conhecimento mais tarde, quando pedi a um intérprete profissional que revisasse nossa conversa.
— É maravilhoso que as pessoas possam se comunicar com uma gama muito maior de pessoas do que antes — disse Lera Boroditsky, professora de ciência cognitiva na Universidade da Califórnia, em San Diego. — Essas traduções vão ser imperfeitas, mas ter acesso é melhor do que não ter acesso.
- Nada de humanos: conheça o Moltbook, uma rede social só para agentes de IA
A ideia de um tradutor universal existe há muito tempo na ficção científica. De que outra forma a tripulação da Enterprise em “Star Trek” poderia conversar com espécies alienígenas? As versões do mundo real da Microsoft e de outras empresas podem auxiliar com cerca de cem dos sete mil idiomas falados globalmente, concretizando aparentemente o sonho de um mundo em que bilhões de pessoas possam se entender — ou pelo menos se virar.
Um relacionamento mais íntimo sustentado por aplicativos parece menos concebível. “Um casamento feliz é uma longa conversa que sempre parece curta demais”, escreveu o autor francês André Maurois. A conversa de Duda e Liang começou em um momento oportuno, quando já existiam ferramentas tecnológicas para facilitá-la, e eles haviam desenvolvido a paciência para usá-las.
— É meio divertido para nós — disse Duda. — Se as pessoas não estivessem apaixonadas, seria muito mais frustrante.
Duda e Liang se conheceram em Xian, China, no outono de 2019. O irmão de Duda estava indo para lá em uma viagem de trabalho, e ele foi junto para conhecer os soldados da região e os templos budistas. A parceira de negócios do irmão sugeriu que sua amiga, Liang, levasse Duda para passear. No fim da semana, ele estava encantado.
— Ela é a pessoa mais alegre e feliz que você vai conhecer — disse ele, que achou que havia química entre eles e tentou beijar Liang para se despedir antes de partir e, surpresa, ela virou o rosto.
Mas ela estava interessada, então, depois que Duda voltou para New Haven, onde é dono de uma livraria, eles mantiveram contato pelo app chines de mensagens WeChat. Eles se comunicavam por texto em inglês, com Liang copiando e colando as mensagens em um tradutor.
- Moya: novo robô chinês imita 92% da caminhada humana e mantém ‘temperatura corporal’
Alguns meses depois de se conhecerem, o mundo fechou por causa da Covid. Duda e Liang, ambos divorciados e com filhos adultos, se viram isolados. Eles começaram a trocar mensagens diariamente, falando sobre suas histórias pessoais, seus casamentos, suas famílias. Com as restrições da pandemia forçando os varejistas a fechar, o trabalho de Duda passou a ser preparar livros para envio on-line, e ele começou a trabalhar à noite, o que significava que estava acordado ao mesmo tempo que Liang.
— Passamos os dois anos seguintes em nossos telefones, nos conhecendo melhor — disse Duda.
Em setembro de 2022, quando a China relaxou as restrições de viagem da pandemia, Liang reservou uma passagem só de ida para os Estados Unidos. Ela estava nervosa: tudo o que Duda havia dito era realmente o que ela tinha entendido?
- Deu a louca no ‘bot’: OpenClaw alucina e bombardeia usuário do agente de IA com 500 mensagens
Duda encontrou Liang no aeroporto segurando uma placa que dizia, em caracteres chineses, “Amor da minha vida”.
— Fiquei profundamente emocionada, porque no aeroporto, na frente de tantas pessoas, ele fez algo que tocou meu coração — lembrou Liang. (Tradução automática: “Eu acho que isso é algo muito, muito romântico, e na frente de tantas pessoas no aeroporto.”)
O tradutor poderia ser melhor. Pedi a Wallace Chen, professor de tradução e interpretação chinês-inglês no Middlebury College, que revisasse minha conversa com o casal. Para trocas simples, a IA se saiu bem, disse ele. Mas falhou nas mais longas.
Por exemplo, ao descrever como Duda a recebeu no aeroporto, Liang disse que contraiu Covid pouco depois de sua chegada e se sentiu tão mal que achou que estava morrendo. Mas essas não foram as palavras que vi na tela. A tradução do aplicativo mostrava que ela havia contraído uma “nova coroa” e achou que ia morrer. Confusa, perguntei se ela queria dizer que o gesto dele, ao carregar a placa amorosa, foi tão romântico que ela poderia morrer.
— Não, não, não — disse ela. E repetiu, mas mesmo assim não entendemos.
Um mês depois, ao assistir ao vídeo da conversa, Chen explicou: o aplicativo havia traduzido o termo em chinês para Covid-19 — novo coronavírus — como “nova coroa”. Duda ficou ao lado dela durante toda a doença, disse ela, e a atenção dele aprofundou os sentimentos que ela tinha por ele, razão pela qual mencionou o assunto.
David Duda e Hong Liang são casados e usam tradutor para se comunicar — Foto: Oliver Farshi / The New York Times
Houve outras falhas de comunicação. Quando as respostas de Liang eram longas, a transcrição de fala para texto não conseguia acompanhar, deixando escapar palavras ou frases inteiras. Era como uma ligação telefônica em que o som falha e resulta em algo ininteligível.
Chris Wendt, ex-gerente de programa de grupo na Microsoft que trabalhou no Translator por duas décadas, disse que “a pessoa que está falando precisa verificar o que disse.”
- Abalo no mercado: Plug-in jurídico da IA da Antrhopic revoluciona trabalho de advogados e derruba ações
Isso significa olhar para o aplicativo enquanto você está falando, e não para a pessoa com quem está conversando, para garantir que ele capture com precisão suas palavras. Isso foi novidade para o casal.
— Por que não nos disseram isso há dois anos? — disse Duda.
Duda e Liang sabem que o tradutor muitas vezes interpreta errado o que querem dizer. Eles têm uma expressão para quando isso acontece: bu bu hao, um trocadilho com uma frase em chinês que significa “não é bom”. Quando isso acontece, eles tentam de novo, usam linguagem corporal ou buscam uma foto na internet para ilustrar. Às vezes, as palavras falham com eles, como falham com todos nós.
Dois meses após a chegada de Liang, Duda soube que queria que ela ficasse. Durante o jantar de Ação de Graças com sua família estendida, ele se ajoelhou e tentou pedi-la em casamento em chinês. Liang não entendeu as palavras dele, mas o significado do gesto de se ajoelhar era claro. Eles se casaram um mês depois.
A vida deles não é tão diferente da de outros casais: saem para comer, andam de bicicleta, caminham na praia e assistem a séries com legendas em chinês — eles gostaram de “Ted Lasso”. Mas, em um aspecto, podem ser incomuns: em três anos de casamento, não tiveram nenhuma briga. Uma discussão conjugal acalorada costuma ser alimentada por uma rápida troca de farpas, algo que seria difícil por meio do tradutor.
— Talvez a melhor maneira de ter um casamento duradouro seja falar línguas diferentes — brincou Duda.
- Conheça o Project Genie: Experimento do Google cria mundos virtuais interativos com IA
O fato de Duda e Liang serem mais velhos e divorciados quando se conheceram ajudou na comunicação, disseram. Eles já experimentaram como um casamento pode dar errado e entendem melhor o funcionamento de um casamento feliz. E são atentos à linguagem corporal. Liang contou que as expressões faciais e os gestos de Duda lhe dizem mais sobre as emoções dele do que o Translator.
— Esses aplicativos de tradução têm dificuldade com muitas coisas, como metáforas, senso de humor, registro de tom, referências culturais — disse Per Urlaub, professor e diretor de línguas globais no Instituto de Tecnologia de Massachusetts.
Mas, acrescentou, que os aplicativos são significativos e funcionais para Duda e Liang.
— A tecnologia está tornando a intimidade possível em condições nas quais ela, de outra forma, não existiria — disse ele. — Nesse caso, acho que a prova está no resultado.
‘Simplesmente Amor’… mas de verdade
Qualquer pessoa que tenha visto “Simplesmente Amor” tem uma expectativa de como essa história deveria ter acontecido: quando um casal nessa comédia romântica tem química e uma barreira linguística, os dois se dedicam aos estudos para se tornarem fluentes.
Duda está tentando aprender mandarim básico com livros infantis e aplicativos como o Duolingo. Liang, que trabalha como massagista e acupunturista, fez um curso de inglês quando chegou a New Haven e usa apps de aprendizado de idiomas. Mas eles estimam que conhecem apenas 200 palavras no idioma um do outro. Duda disse que se sentia velho demais para se tornar fluente em uma nova língua.
O casal diz que o encantamento que sentem um pelo outro faz dar certo. Quando a paixão diminuir, a dificuldade de usar aplicativos de tradução pode deixá-los loucos, admitiu Duda.
- Fé na tecnologia: IA gera ‘guru’ seguido por milhões, ganha versão gospel, recria Orixás e inventa religião
Os olhos de Liang estavam fixos no telefone, lendo atentamente a tradução do que Duda dizia. Então ela levantou o olhar e entrou na conversa.
— Na verdade, isso é basicamente o mesmo que os chineses dizem — afirmou ela, de acordo com meus AirPods. — Dizemos que duas pessoas ficam juntas porque não se conhecem. Queremos explorar os segredos uma da outra — completou.
Quando realmente passar a conhecê-lo bem, disse, talvez não fique tão interessada. Ela o observou acompanhando a tradução no telefone, esperando que ele terminasse de ler aquela parte para rir.



