Valério Arcary, historiador, professor observa que da milícia ao mercado financeiro, uma fração da elite brasileira encontra no bolsonarismo sua principal expressão política.
Valério Arcary / Especial para Opera Mundi
“Lobo não come lobo.”
“Louca é a ovelha que confia no lobo.”
– Provérbios populares portugueses.
Bolsonarismo e Lumpen burguesia
Uma grande transformação ocorreu no mundo nos últimos 10 ou 15 anos. No coração da Tríade que governa o mundo sob liderança dos EUA, da derrota do nazifascismo na Segunda Guerra Mundial até a virada do século XXI, a extrema-direita era percebida como pequenos círculos marginais e radicais. Não mais. São grandes partidos eleitorais de massa. Mas não são somente isso. São movimentos político-ideológicos de combate e base social com impulso contrarrevolucionário.
Ascensão da China
À escala internacional, desde o período marcado pela recessão aberta pela crise econômica deflagrada em 2008 e pela ascensão da China, o crescimento da influência política da extrema-direita tem sido ininterrupto. E passou a prevalecer na mídia, inclusive nos meios de comunicação que respondem às frações liberais da classe dominante dos países centrais, a normalização da extrema-direita.
De Trump a Farage, André Ventura a Santiago Abascal, Le Pen, Meloni, Milei, Kast, Bukele, Keiko Fujimori, Abelardo de La Espriella e Flávio Bolsonaro, entre outros, todos são apresentados como representantes de um populismo de direita conservador e vêm sendo aceitos como líderes de uma corrente com direito legítimo de defender ideias, propostas e práticas extremistas. Os fascistas beneficiam-se de plena participação no debate público e disputa institucional e vêm ampliando sua força, chegando, através de sucessivas eleições, à frente de governos. Mas não tenhamos ilusões: preparam-se, com mais ou menos subterfúgios, para subverter o regime democrático-liberal e tomar o poder de Estado.
Extrema-direita
A extrema-direita é “funcional” para a mobilização de camadas médias desesperadas, para amedrontar as massas populares e abrir o caminho para uma derrota histórica da classe trabalhadora. Sua naturalização expressa a tolerância da burguesia liberal com o neofascismo e obedece a um cálculo estratégico: manter a supremacia dos EUA no mundo contra a China.
Flávio Bolsonaro
A normalização que estamos assistindo da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, mesmo depois do espantoso escândalo de corrupção de caixa 2 dissimulado de financiamento do filme-biografia de seu pai, é algo assombroso, mas não é uma “jabuticaba”. Flávio mente como se não houvesse amanhã. Trata-se de um extremista, o que não é surpresa para ninguém, porque o bolsonarismo nunca disfarçou seu impulso fascista: afinal, o núcleo dirigente foi cúmplice de uma operação golpista que foi até a loucura de elaborar um plano “verde-amarelo” de liquidação física de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes.
É verdade e tem importância que Jair Bolsonaro e alguns generais tenham sido condenados e estejam presos. Mas é uma aberração a tolerância das instituições do regime, a começar pela Justiça Eleitoral e pela mídia comercial, com seus sucessivos crimes políticos.
A impunidade é absurda.
Se a revelação das estreitas relações de Flávio com o banqueiro Vorcaro não é um crime eleitoral – um objeto criminoso –, então se naturalizou o “vale tudo”. Não há nada de “normal” na operação que movimentou pelo menos 60 milhões de reais. Não é tampouco sem importância a visita a Trump, que resultou no apoio à ingerência da maior potência militar da história nas eleições brasileiras. Mas não é menos grotesca a relação dos Bolsonaros com frações lumpens da burguesia.
Lumpen
Na esquerda, os lumpens são associados à marginalidade pobre. Este reflexo é parcial, portanto, errado. Marx foi pioneiro na identificação do lumpen, em um primeiro nível de abstração, como um tipo de grupo social, não como uma fração de classe. O lumpen não era entendido como uma fração do proletariado. Existem, além das frações de classe, grupos sociais. Grupo social é um coletivo, em alguma medida homogêneo, que tem uma existência com autonomia relativa em relação às três grandes classes das sociedades contemporâneas: os capitalistas, a classe média e os trabalhadores. Grupos sociais são, por exemplo, os religiosos profissionais, os policiais ou mesmo os artistas, entre outros.
Lumpemproletariado
O lumpen é um grupo social instável que conhece flutuações, ou seja, é inconstante e variável. Lumpemproletariado é um conceito do século XIX que pode ser traduzido do alemão, ao pé da letra, como “homem trapo”, e se refere a uma parcela da população que vive degradada na sociedade: os “desesperados”.
Lumpemburguesia
Mas, no Brasil do século XXI, podemos usar também o conceito de lumpemburguesia sugerido por Ernest Mandel há cinquenta anos, recuperando do esquecimento a referência de Marx no 18 de Brumário. Lumpesinato era entendido como um grupo social reduzido a condições mínimas de sobrevivência, ou até à miséria “biológica”, que vive nos bairros populares mais pobres em atividades irregulares.
O lumpen está excluído em espaços econômicos informais ou ilegais, às vezes até antissociais, o que não é o mesmo. Não são sinônimos: há atividades consideradas ilegais que não são antissociais. Muitas pessoas da classe trabalhadora escapam da condição lumpen, enquanto outras caem nela. Nas condições de desagregação social da sociedade capitalista, um grande número de pessoas pode formar uma massa excluída e “desclassada”. Mas a lumpenização atingiu, em diferentes graus, todas as classes sociais. Existe uma lumpemburguesia no Brasil.
PCC, Comando Vermelho e outras
O crime organizado, PCC, Comando Vermelho e outras facções são a face mais pública da lumpemburguesia, mas somente uma ala. O crime organizado prosperou no Brasil e alcançou a dimensão de poderosas empresas capitalistas que movimentam bilhões de reais por ano. Operam nos negócios mais variados, muito além do narcotráfico que originou a primeira etapa de acumulação de capital, e infiltraram-se nas polícias e em variadas instituições. Mas não lutam pelo poder político.
A lumpemburguesia é um grupo social que explora oportunidades de ganhar dinheiro vertiginosamente rápido, explorando as inúmeras brechas jurídicas existentes. Não querem pagar impostos, não querem regras que estabeleçam limites, não aceitam regulações, não têm escrúpulos. São lumpens as frações do agronegócio que fazem a expansão da fronteira agrícola com queimadas. Madeireiras, garimpos e mineração são atividades em que a lumpemburguesia floresce. Ou aquelas empresas que usam mão de obra em condições análogas à da escravidão. Os exemplos são inúmeros.
REAG-“limpeza de capital”
Mas agora temos informações disponíveis sobre a REAG – e a “limpeza de capital” no negócio de combustíveis, hotelaria etc. – e do Banco Master que confirmam a desenvoltura de uma fração lumpen no mercado financeiro, apropriando-se dos depósitos em fundos de pensão em vários estados, como no Pará e no Rio de Janeiro, entre outros, e em muitas prefeituras. A relação de uma ala do Centrão – Ciro Nogueira, presidente do PP – e da extrema-direita com Vorcaro – governadores de Brasília e do Rio de Janeiro com Daniel Vorcaro, além da família Bolsonaro com as milícias – revelou uma orgia financeira lumpen indisfarçável.
Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro é inimigo de todas as pequenas, mas valiosas, conquistas sociais dos últimos 35 anos, desde o fim da ditadura. Defende privatizações sem limite, despreza o Bolsa Família, desdenha do SUS, denuncia a Previdência, desqualifica a educação pública. Não fosse o bastante, é também um inimigo das liberdades democráticas e aposta num alinhamento incondicional com os planos de Trump de recolonização da América Latina.
Mas isso não é tudo.
Os Bolsonaros são expressão política da lumpemburguesia.
(*) Valério Arcary é historiador e professor titular aposentado do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo.
PS do Colaborador:
Fotoarte: “Arcary,Aroeira e os Monstros Mitológicos”



